quarta-feira, 4 de março de 2009

Abuso de absurdos


A Igreja Católica lamenta mais um aborto.

Alguém não sabe do caso do estupro pelo padastro de uma menina de 9 anos? Resumo: tinha um padastro que abusava sexualmente de uma menina de 9 anos. Desde os seis. Sua irmã, agora com 14, também sempre se deu mal nessa história. Foi descoberto que a menina, de 9, estava grávida de gêmeos de 15 semanas. Primeira solução, abortar.
Conflito: o pai biológico da menina e a Igreja foram contra.
Argumento do médico: os bebês são indesejados, frutos de estupros sucessivos, sórdidos e viciosos e, ah, a gravidez pode matar a mãe.
Argumento do pai e da igreja: Deus não quer.

Agora a menina abortou quimicamente. Tudo correu sem complicações e não há sequelas, aparentemente.

Mas tudo isso envolveu absurdos tremendos: desde o demente que realizava tais atos, passando pela igreja ir contra o aborto e a cobertura jornalística. Vou tentar falar sobre eles em ordem inversa da que eu os citei.

Primeiro a cobertura. Os jornalistas têm dado ênfase à discussão moral envolvida entre os dois polos, o científico e o religioso, sendo que, para mim, não é o mais importante. Afinal, sempre haverá ultraconservadores querendo ir contra o bom senso e o mundanismo (ou seja, tudo que conhecemos).
O segundo fator, na tabela de prioridade dos nosso futuros colegas, é sensibilizar o leitor com contextualizar o acontecimento, dando cores aos rostos da menina, seu pai, seu padastro, suas vidas. Isso é sensacionalismo. Admito que eu fui atrás dessa contextualização pela Web, imediatamente após ouvir a notícia na CBN online. De fato é o que gera maior interresse. Mas não é, na minha opinião, jornalisticamente correto.

Agora sobre a posição ultrarreacionária que tomaram os religiosos Igreja e pai da menina (cujo nome foi omitido, corretamente, pelos autores das matérias que li).
Qual é a da igreja católica brasileira? Não percebem a falta de bom senso em atitudes como essa? A advogada da arquidiocese foi consultada pela matéria d'O Globo
, "prontificou-se cuidar da menina" e concorda com o arcebispo de Recife quando este diz que "a lei humana contraria a lei de Deus, que é contra a morte".
Acho que eles consideram a vítima, de 1,33m e 36kg segundo a mesma matéria, apenas um veículo de filhos, como parece ser a opinião em geral da Igreja sobre as mulheres.

Por último, o demente. Minha indignação é contra todas as coisas que se acham no direito de aliviarem sua fixação doentia com uma menina de 6 anos e que não sabe para que serve um pênis. Não sei o que causa tanta agressividade em mim, não posso explicar zoologicamente a vontade de ter com ele pessoalmente para trocarmos umas palavras. Pena de morte? Talvez não seja o suficiente.
Não sei e não quero saber como se sente o pai da garota, já que eu não consigo respeitar sua opinião contra a interrupção da gravidez.
Mas se fosse eu (vigiem-me a partir de hoje) não aguardaria a formidável justiça brasileira tomar providências.

Nota: o médico responsável pelo procedimento abortivo se chama Sérgio Cabral, mas não é jornalista ou governador do Rio de Janeiro.







Somos o maior país católico do mundo. Abramos os olhos. (Foto: mistymisschristie/flickr)

4 commentz:

Amanda P. disse...

Yuri, gostei muito do seu texto. É um assunto super polêmico, mas, na maior parte, eu concordo com você. Sou a favor do aborto em uma série de circunstâncias, especialmente casos como esse. Não entendo como alguém pode ser contra.

Também me irrita a posição de muitos jornalistas, que parecem não pensar no futuro dessa menina. Tanta exposição, como fica mais pra frente? Ela já não tem problemas suficientes?

Sobre o seu texto, é a primeira vez que leio algo seu e gostei do seu jeito leve e tranquilo de escrever. É o tipo de texto jornalístico que eu mais gosto.

Vou ver se escrevo algo e a gente bota esse blog pra rolar.

Priscila Jordão disse...

Oi Yuri

Gostei muito do seu texto, do estilo descontraído que a Amanda comentou, mas que se impõe, se faz respeitar.

Um ponto que vc comentou me chama a atenção desde que o notei na cobertura do caso Isabela: isso de dar a roupagem particular aos fatos: mostrar o rosto da menina, a vida íntima dela, etc.

Em primeiro lugar, isso viola a privacidade da garota que pode vir a ter grandes dificuldades para superar a hiper-exposição seja na escola, na família, ou mesmo a longo prazo.

Em segundo, e mais importante, sobre o papel do jornalista. O trabalho dele não é apenas narrar os fatos e informar o público, mas promover debates a fim de compreender os fenômenos sociais. Não basta falar do caso dessa garotinha ou da Isabela, de como e com quem aconteceu. Deve-se também investigar esse tipo de patologia sexual/social.

Por que as pessoas tem tanto interesse no caso? Porque é algo inexplicado, não discutido até agora. Pra lá da polêmica, elas tem interesse em entender a situação em si. Acho que falta ir fundo no assunto para, se não compreender, pelo menos classificar esse tipo de "comportamento monstruoso", avaliar suas estatísticas de ocorrência, diagnosticar suas possíveis causas e como uma pessoa pode vir a cometer esse crime, entender como se pode identificar e lidar com uma criança vítima de abuso.

Assim ele pode ser colocado nos seus verdadeiros eixos (psicologia clínica, patologia social, que seja) e fugir classificação forçada de pecado ou monstruosidade pela Igreja. Que, então, busque-se contornar esse tipo de crime no Direito, na Psicologia, não na Religião.

Jornalismo não é notificar o público, mas promover o debate e procurar esclarecer o mundo com a contribuição de cada um. Ou pelo menos quero que o meu jornalismo seja.

Escrevi demais? Sorry! Parabéns Yuri!

Luísa disse...

as coisas que esse assunto me fizeram pensar:

1- mostrar a imagem do menor não é crime?

2- imagem mental da garota com uma boneca na mão e um bebê em outra

3- a Igreja pensou bastante ao se posicionar, né. a lei de Deus é contra a morte, mas o clero está coalhado de casos de pedofilia.

4- se pena de morte não é suficiente pra você, Yuri, nem quero imaginar o que é essa 'troca de palavras' que você teria com o pedófilo! huahuahua

ai, estou topicalizando demais. no mais, gostei muito dos dois textos que vocês colocaram e me sinto muito intimidada, prontofalei. como, agora, falarei da minha revolta relativa à desatualização do jupiterweb?

beijos

Yuri Gonzaga disse...

Post no blog do Nassif. Leiam também os comentários, são interessantes.

http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/03/05/a-questao-religiosa/